Enquanto não encerramos um capítulo, não podemos partir para o próximo. Por isso é tão importante deixar certas coisas irem embora, soltar, desprender-se. As pessoas precisam entender que ninguém está jogando com cartas marcadas, às vezes ganhamos e às vezes perdemos. Não espere que devolvam algo, não espere que reconheçam seu esforço, que descubram seu gênio, que entendam seu amor. Encerrando ciclos. Não por causa do orgulho, por incapacidade ou por soberba, mas porque simplesmente aquilo já não se encaixa mais na sua vida. Feche a porta, mude o disco, limpe a casa, sacuda a poeira. Deixe de ser quem era, e se transforme em quem é. — (Fernando Pessoa)

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Eu olho pela janela do carro e vejo a cidade inteira passando pelos meus olhos. Tantos lugares onde eu poderia estar, e eu escolho justo aqui. Num banco de passageiro, rumando à lugar nenhum. Tanta gente aí fora precisando de consolo, de carinho, de amor. Tanta gente pronta pra me completar. E eu escolho ser metade para sempre, desde que essa metade esteja cheia de você. Eu escolhi os erros e as brigas, a gritaria e a falta de calma. Silenciosamente, eu nos escolhi. Você não sabe disso, não percebe algo que está a um palmo do seu nariz, a não ser que isso seja dito. Você não acredita em nada além das palavras soltas no ar. Deveria ser capaz de me ouvir melhor, meu garoto, pois já te repeti milhares de vezes que sou pelas entrelinhas. Não falo nem metade do que penso, para o seu próprio bem…
Nesse exato momento, minha mente está em um conflito acirrado e conturbado com uma mistura de mil e um pensamentos que não chegam a se concretizar. A paisagem voa e leva embora qualquer sentido que eu tenha adquirido nesse tempo de viagem. Desisto de ajeitar meus planos e colocar tudo no lugar, desisto de pensar como uma pessoa normal e gasto todas minhas energias para apenas não pensar em nada. Tento me concentrar apenas na música da rádio, no som do vento batendo de frente, na sintonia das nossas respirações… Nossas. Jurei pra mim mesma que não ia fazer isso, mas antes que eu possa pensar em algo, minha cabeça gira em direção ao banco do motorista.
(Sempre tão sério, concentrado. Com essa cara de anjo caído tentando se disfarçar de anjo da guarda. Com o sorriso travesso que não te deixa ter cara de homem, só de menino, de guri. Você não cresce nunca, não amadurece, não muda. Você é o mesmo de anos atrás, o mesmo cabelo bagunçado, a voz rouca, os olhos negros e indecifráveis. Anos se passaram e nenhuma mínima marca na sua armadura foi exposta para que eu possa me gabar. Sei que elas existem, sei que te afetei de alguma maneira. Mas você não deixa transparecer. Veste essa sua máscara e pronto, vira o garoto misterioso que acaba comigo a cada dia mais. Você me enfraquece, menino.)
- Me explica de novo como a gente veio para aqui? - Você me olha e ri como se isso fosse a coisa mais divertida do mundo. Não é. Eu estou totalmente apavorada, com medo, desesperada. Somos nós dois - eu e você - no mesmo carro. No mesmo metro quadrado. Isso nunca deu certo, garoto. Nunca. - Por que, juro, ainda não lembro qual foi a última vez que a sorte sorriu para mim dessa maneira. - Mais um sorriso sarcástico e bobo. Mais uma rachadura.
- E você ousa chamar isso de sorte? Sinceramente…
- Entrou no carro por que quis, não é? Além do mais, ainda não chamo de sorte. Não enquanto nós dois estivermos vestidos. - Me olha de novo, mais um pouco. Fica me encarando para ver minha reação. Eu não reajo. Quer dizer, tento não reagir. Tirando o meu braço inteiro que ficou completamente arrepiado com a mínima menção de nós dois. E eu torço com todas as minhas forças para que você não tenha notado esse meu tremor. Você dá uma risadinha disfarçada e eu percebo que já é tarde demais.
- Mantenha os olhos na estrada. Não quero me acidentar por sua causa.- (Não quero mais um machucado seu.) Reviro os olhos e tento fazer uma cara que, eu espero, seja de tédio total. Tirando a parte que todos os membros do meu corpo estão saltando e pulando e se remexendo dentro de mim. Tirando que a eletrecidade corre pelas minhas veias e eu mal consigo respirar de tão nervosa. Não consigo acreditar, como a gente foi parar aqui? Por Deus.
- Não, é sério, Ana. - Estremeço só de ouvir meu nome saindo dos teus lábios. - Se você não conversar comigo, eu posso dormir. Aí sim nós teríamos problemas no quesito acidente. Então, porque não aproveita esse tempo em branco e me conta porque duas da manhã e eu tive que te buscar em Porto Alegre?
(O acidente de verdade vai acontecer se permanecermos juntos, nesse carro.)
- Porque… Pra ser sincera, eu não sabia mais para quem ligar. E, acho que você deve ter percebido, eu meio que precisava de ajuda.
- Eu sei, e estou impressionado. Geralmente, Ana, tu não é o tipo de garota que corre e pede por socorro. O que me leva a crer que essa foi uma situação bem séria. E ai, vai me contar? Porque, enquanto eu não souber, vou ficar imaginando coisas horríveis. Coisas que, sinceramente, eu duvido que você esteja fazendo.
Todas as lembranças daquela noite me atingiram devagar, rápido, como um soco. Eu senti tudo voltar na minha garganta, toda a tontura, o mal estar. Tudo aquilo que eu evitei pensar durante a viagem inteira me dominou. Eu não posso fazer isso, não na tua frente. Eu te prometi ser forte, e eu vou cumprir a promessa. Não, respira fundo, menina. Não chora, não na frente dele. Te finje de forte por mais uns minutos, te finje de mulher por um tempinho a mais. Não deixa ele saber o quanto você está mal. Não deixa, por favor. Não chor…
(Tarde demais.)
As lágrimas começam a escorrer e eu tive vontade de ficar pequena e me esconder embaixo do banco. Tento me controlar mas o sussurro se transforma em grito e não dá mais pra controlar. Você sempre teve esse efeito de poção da verdade sobre mim. Não há nada nesse mundo que eu consiga esconder de você. (Talvez, com muita sorte, o quanto eu preciso de ti.) Então, você me olha desse jeito que me faz ter calor pelo corpo inteiro, mas não posso retribuir o olhar. Não com os olhos cheios de lágrimas e fraca dessa maneira. Não assim, tão vulnerável. Em vez de te encarar, olho para baixo e sinto o carro ir parar no acostamento.
- Não para, é perigoso, você sabe disso…
- Ei, escuta aqui: eu não vou ligar o carro até você me disser o que está acontecendo, tá bem? Eu não vou a lugar nenhum até que você se sinta melhor. - Pausa. Silêncio. Mais choro. - Olha pra mim, Ana, olha.
Eu sinto você se aproximar e sua mão tocar meu rosto. Contra minha resistência, sua mão me obriga a levantar os olhos. Assim ficamos, por cinco minutos, apenas nos encarando. Sua mão desse do meu rosto e segura minha coxa firmemente. Eu tremo toda, de novo e de novo. Eu não me canso de ser sempre essa mesma menina fraca e estúpida. Eu não me canso de você.
- Ana… Não faz isso comigo. De todas essas suas maluquices, a pior de todas é quando você chora. Juro por Deus que nada me deixa pior do que isso. Porque eu sei que, enquanto você grita e briga, há um ponto seu que sabe que vai se resolver. Quando você chora… É como se nada no mundo pudesse ser certo novamente. Como se tudo evaporasse e se transformasse em pó. Como se nem mesmo eu existisse. - Uma das mão apertou um pouco mais, e com a outra você secou minha bochecha. - Tem vezes que você se esquece que, independente do tempo, eu sempre vou estar aqui.
Acontece que você se esquece como eu sou vulnerável a você, e tem a ousadia de passar a mão pelos meus ombros e encaixar minha cabeça no teu peito. Quantas vezes já te disse que é covardia fazer isso?
- Eu… Desculpa, Henrique. - Levanto a cabeça e me deixo cair nos teus olhos negros esverdeados com a pouca dignidade que me resta. - Eu não deveria ter ligado, não deveria ter te pedido por isso. Não deveria ter te acordado. Sei lá se você estava dormindo também, talvez estivesse com alguma mulher. Nesse caso, não deveria ter te tirado da cama dela. Mas… É meu último pedido por hoje, certo? Eu não quero falar nisso… Será que eu não posso te contar amanhã?
Assim nós ficamos por um bom tempo, com os corpos meio entrelaçados, os olhos dentro um do outro. Assim a gente fica pelo o que parece ser uma eternidade. Só que, como tudo que parece ser pra sempre, acaba. (Veja só nós dois.) Acaba para que algo melhor aconteça. Algo pior. Você passa a mão no meu rosto e eu fecho os olhos para não enlouquecer.
- Claro, minha menina. Você pode me contar quando quiser. Só me promete não ficar mal.
- Desde que prometa que não vai a lugar nenhum, dessa vez. - Mais um sorriso.
- Eu nunca saí daqui, Anna. O problema é que você não me enxerga. Ou, pior ainda, finje que não enxerga. - Não ri, não faz com que eu ria contigo também. Não deixa eu me lembrar de tudo. Por favor.
- Henrique… - Você já sabe o que eu vou falar, você já sabe o discurso interminável que nem mesmo eu aguento mais sobre como nós dois deveríamos nos afastar. Sobre como seria melhor se simplesmente parássemos de nos falar. Você me olha com aquela expressão que me manda fica quieta e, de repente, eu tenho vontade de obedecer. De que adianta falar, mesmo? Pra que servem as palavras? Até hoje, elas só nos destruíram.
- Shh, guria. Deixa de falar por uns minutos, talvez te faça até bem, sabe? A gente não precisa se preciptar em nada.
- Nós dois já somos um precipício, juntos.
Escuto a tua risada ressoando dentro de mim e já não consigo pensar em nada. Ela para, abruptamente, enquanto eu vejo nos teus olhos o desejo se alastrar. Teus olhos seguem na direção da minha boca e eu perco o ar por imaginar o que está por vir. São três e sete da manhã. Nenhum carro está vindo, nenhum voltando. Não há ninguém perto o suficiente para ver minha ruína, minha queda. Além de você. Mas, aposto o meu corpo, você seria o primeiro a me empurrar e dizer que o bom da vida só acontece nos momentos de terror. E eu estou aterrorizada.
- Henrique… Você sabe que é errado, sabe que não deve. - Um beijo de leve no lóbulo, no pescoço, e as carícias começam a subir. Sinto tua boca, devagar, passar a milímetros da minha, em mais uma tentativa de me provocar. Você faz de propósito, sei disso.
- Eu não vejo nada de errado em duas pessoas se amarem, Anna. - Que tipo de argumento eu teria contra isso? Você ganhou, de novo. Eu cedo. E, de repente, não parece haver qualquer tipo de problema em você beijar meu pescoço e minhas mãos correrem para as suas costas. Eu agarro tua camisa preta e você como se fossem as últimas coisas que me mantém viva. Eu preciso disso. Preciso de você.
Então, você levanta a cara e ficamos menos de um palmo de distância. Olho com olho, nariz com nariz, boca com boca… Um único movimento e eu sou sua. Eu me rendo. Eu sou tua prisioneira e você me olha como se me pedisse permissão. E tudo isso dura apenas um segundo até que nossas bocas se unem e eu já não sei diferenciar a esquerda da direita, o em cima e o embaixo. Eu já não sei nem meu nome, garoto. Só sei que te pertenço. Nosso beijo se acelera e nós dois sabemos que isso não significa algo bom, mas não arrumamos forças para dizer as palavras que nos fariam parar. No ritmo perfeito, na sincronia perfeita. Eu quase me esquecera de como era beijar alguém que fosse feito para você. Quase esqueci de como era ter o calor pressionado contra o próprio corpo, ambas mentes unidas. 
Você me puxa para o seu colo e nós dois meio que formamos um corpo só. Não existe espaços entre nós, e nada parece o suficiente. Eu seguro seus cabelos e você agarra minha cintura e tudo o que eu consigo pensar é como eu gostaria de estar ainda mais próxima de você. Minhas mãos exploram seus ombros e as suas passeiam pelas minhas costas. Eu quase esqueci como era tocar alguém que nos conhece melhor que nós mesmos. Você me segura mais perto, como se pedisse para eu não partir. Eu não vou, amor. Nunca.
(Espera aí… O que é que estamos fazendo?)
- Henrique… - eu digo, quase sem fôlego. Mas preciso dizer, porque se não for agora, talvez nunca mais diga. - Henrique, é sério. - repito, mas minha voz sai tão fraca e sem vontade que nem eu acredito. Você continua a beijar meu pescoço e, mesmo pedindo para parar, minhas mãos não soltam de seus cabelos castanho-escuro. - Isso é errado, não pode acontecer. Não mais. A gente já conversou sobre isso, e prometemos que iria acabar. Nós dois nunca…
- Anjo. - Seus olhos me incendeiam e eu esqueço completamente do porquê de continuar falando. - Tem medo de mim?
(Sim.)
- Claro que não.
- Então, me prova. Se quiser mesmo ir, se quiser mesmo que eu te esqueça, volta pro banco passageiro e a gente finje, pela milésima vez, que isso não aconteceu. Agora, se você quiser… Se realmente quiser, me prova. - Suas mãos me largam e pousam sobre o ar. - O que vai ser?
(Silêncio.)
Um segundo. Dois. Três. Quatro.
Eu tranco a respiração.
(E agora?)
- Droga, você já sabe a resposta.
E te beijo. De novo e de novo. E só Deus sabe como ainda falta tempo para essa noite acabar. Ana F (salt-waterroom)

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Eu olho pela janela do carro e vejo a cidade inteira passando pelos meus olhos. Tantos lugares onde eu poderia estar, e eu escolho justo aqui. Num banco de passageiro, rumando à lugar nenhum. Tanta gente aí fora precisando de consolo, de carinho, de amor. Tanta gente pronta pra me completar. E eu escolho ser metade para sempre, desde que essa metade esteja cheia de você. Eu escolhi os erros e as brigas, a gritaria e a falta de calma. Silenciosamente, eu nos escolhi. Você não sabe disso, não percebe algo que está a um palmo do seu nariz, a não ser que isso seja dito. Você não acredita em nada além das palavras soltas no ar. Deveria ser capaz de me ouvir melhor, meu garoto, pois já te repeti milhares de vezes que sou pelas entrelinhas. Não falo nem metade do que penso, para o seu próprio bem…

Nesse exato momento, minha mente está em um conflito acirrado e conturbado com uma mistura de mil e um pensamentos que não chegam a se concretizar. A paisagem voa e leva embora qualquer sentido que eu tenha adquirido nesse tempo de viagem. Desisto de ajeitar meus planos e colocar tudo no lugar, desisto de pensar como uma pessoa normal e gasto todas minhas energias para apenas não pensar em nada. Tento me concentrar apenas na música da rádio, no som do vento batendo de frente, na sintonia das nossas respirações… Nossas. Jurei pra mim mesma que não ia fazer isso, mas antes que eu possa pensar em algo, minha cabeça gira em direção ao banco do motorista.

(Sempre tão sério, concentrado. Com essa cara de anjo caído tentando se disfarçar de anjo da guarda. Com o sorriso travesso que não te deixa ter cara de homem, só de menino, de guri. Você não cresce nunca, não amadurece, não muda. Você é o mesmo de anos atrás, o mesmo cabelo bagunçado, a voz rouca, os olhos negros e indecifráveis. Anos se passaram e nenhuma mínima marca na sua armadura foi exposta para que eu possa me gabar. Sei que elas existem, sei que te afetei de alguma maneira. Mas você não deixa transparecer. Veste essa sua máscara e pronto, vira o garoto misterioso que acaba comigo a cada dia mais. Você me enfraquece, menino.)

- Me explica de novo como a gente veio para aqui? - Você me olha e ri como se isso fosse a coisa mais divertida do mundo. Não é. Eu estou totalmente apavorada, com medo, desesperada. Somos nós dois - eu e você - no mesmo carro. No mesmo metro quadrado. Isso nunca deu certo, garoto. Nunca. - Por que, juro, ainda não lembro qual foi a última vez que a sorte sorriu para mim dessa maneira. - Mais um sorriso sarcástico e bobo. Mais uma rachadura.

- E você ousa chamar isso de sorte? Sinceramente…

- Entrou no carro por que quis, não é? Além do mais, ainda não chamo de sorte. Não enquanto nós dois estivermos vestidos. - Me olha de novo, mais um pouco. Fica me encarando para ver minha reação. Eu não reajo. Quer dizer, tento não reagir. Tirando o meu braço inteiro que ficou completamente arrepiado com a mínima menção de nós dois. E eu torço com todas as minhas forças para que você não tenha notado esse meu tremor. Você dá uma risadinha disfarçada e eu percebo que já é tarde demais.

- Mantenha os olhos na estrada. Não quero me acidentar por sua causa.- (Não quero mais um machucado seu.) Reviro os olhos e tento fazer uma cara que, eu espero, seja de tédio total. Tirando a parte que todos os membros do meu corpo estão saltando e pulando e se remexendo dentro de mim. Tirando que a eletrecidade corre pelas minhas veias e eu mal consigo respirar de tão nervosa. Não consigo acreditar, como a gente foi parar aqui? Por Deus.

- Não, é sério, Ana. - Estremeço só de ouvir meu nome saindo dos teus lábios. - Se você não conversar comigo, eu posso dormir. Aí sim nós teríamos problemas no quesito acidente. Então, porque não aproveita esse tempo em branco e me conta porque duas da manhã e eu tive que te buscar em Porto Alegre?

(O acidente de verdade vai acontecer se permanecermos juntos, nesse carro.)

- Porque… Pra ser sincera, eu não sabia mais para quem ligar. E, acho que você deve ter percebido, eu meio que precisava de ajuda.

- Eu sei, e estou impressionado. Geralmente, Ana, tu não é o tipo de garota que corre e pede por socorro. O que me leva a crer que essa foi uma situação bem séria. E ai, vai me contar? Porque, enquanto eu não souber, vou ficar imaginando coisas horríveis. Coisas que, sinceramente, eu duvido que você esteja fazendo.

Todas as lembranças daquela noite me atingiram devagar, rápido, como um soco. Eu senti tudo voltar na minha garganta, toda a tontura, o mal estar. Tudo aquilo que eu evitei pensar durante a viagem inteira me dominou. Eu não posso fazer isso, não na tua frente. Eu te prometi ser forte, e eu vou cumprir a promessa. Não, respira fundo, menina. Não chora, não na frente dele. Te finje de forte por mais uns minutos, te finje de mulher por um tempinho a mais. Não deixa ele saber o quanto você está mal. Não deixa, por favor. Não chor…

(Tarde demais.)

As lágrimas começam a escorrer e eu tive vontade de ficar pequena e me esconder embaixo do banco. Tento me controlar mas o sussurro se transforma em grito e não dá mais pra controlar. Você sempre teve esse efeito de poção da verdade sobre mim. Não há nada nesse mundo que eu consiga esconder de você. (Talvez, com muita sorte, o quanto eu preciso de ti.) Então, você me olha desse jeito que me faz ter calor pelo corpo inteiro, mas não posso retribuir o olhar. Não com os olhos cheios de lágrimas e fraca dessa maneira. Não assim, tão vulnerável. Em vez de te encarar, olho para baixo e sinto o carro ir parar no acostamento.

- Não para, é perigoso, você sabe disso…

- Ei, escuta aqui: eu não vou ligar o carro até você me disser o que está acontecendo, tá bem? Eu não vou a lugar nenhum até que você se sinta melhor. - Pausa. Silêncio. Mais choro. - Olha pra mim, Ana, olha.

Eu sinto você se aproximar e sua mão tocar meu rosto. Contra minha resistência, sua mão me obriga a levantar os olhos. Assim ficamos, por cinco minutos, apenas nos encarando. Sua mão desse do meu rosto e segura minha coxa firmemente. Eu tremo toda, de novo e de novo. Eu não me canso de ser sempre essa mesma menina fraca e estúpida. Eu não me canso de você.

- Ana… Não faz isso comigo. De todas essas suas maluquices, a pior de todas é quando você chora. Juro por Deus que nada me deixa pior do que isso. Porque eu sei que, enquanto você grita e briga, há um ponto seu que sabe que vai se resolver. Quando você chora… É como se nada no mundo pudesse ser certo novamente. Como se tudo evaporasse e se transformasse em pó. Como se nem mesmo eu existisse. - Uma das mão apertou um pouco mais, e com a outra você secou minha bochecha. - Tem vezes que você se esquece que, independente do tempo, eu sempre vou estar aqui.

Acontece que você se esquece como eu sou vulnerável a você, e tem a ousadia de passar a mão pelos meus ombros e encaixar minha cabeça no teu peito. Quantas vezes já te disse que é covardia fazer isso?

- Eu… Desculpa, Henrique. - Levanto a cabeça e me deixo cair nos teus olhos negros esverdeados com a pouca dignidade que me resta. - Eu não deveria ter ligado, não deveria ter te pedido por isso. Não deveria ter te acordado. Sei lá se você estava dormindo também, talvez estivesse com alguma mulher. Nesse caso, não deveria ter te tirado da cama dela. Mas… É meu último pedido por hoje, certo? Eu não quero falar nisso… Será que eu não posso te contar amanhã?

Assim nós ficamos por um bom tempo, com os corpos meio entrelaçados, os olhos dentro um do outro. Assim a gente fica pelo o que parece ser uma eternidade. Só que, como tudo que parece ser pra sempre, acaba. (Veja só nós dois.) Acaba para que algo melhor aconteça. Algo pior. Você passa a mão no meu rosto e eu fecho os olhos para não enlouquecer.

- Claro, minha menina. Você pode me contar quando quiser. Só me promete não ficar mal.

- Desde que prometa que não vai a lugar nenhum, dessa vez. - Mais um sorriso.

- Eu nunca saí daqui, Anna. O problema é que você não me enxerga. Ou, pior ainda, finje que não enxerga. - Não ri, não faz com que eu ria contigo também. Não deixa eu me lembrar de tudo. Por favor.

- Henrique… - Você já sabe o que eu vou falar, você já sabe o discurso interminável que nem mesmo eu aguento mais sobre como nós dois deveríamos nos afastar. Sobre como seria melhor se simplesmente parássemos de nos falar. Você me olha com aquela expressão que me manda fica quieta e, de repente, eu tenho vontade de obedecer. De que adianta falar, mesmo? Pra que servem as palavras? Até hoje, elas só nos destruíram.

- Shh, guria. Deixa de falar por uns minutos, talvez te faça até bem, sabe? A gente não precisa se preciptar em nada.

- Nós dois já somos um precipício, juntos.

Escuto a tua risada ressoando dentro de mim e já não consigo pensar em nada. Ela para, abruptamente, enquanto eu vejo nos teus olhos o desejo se alastrar. Teus olhos seguem na direção da minha boca e eu perco o ar por imaginar o que está por vir. São três e sete da manhã. Nenhum carro está vindo, nenhum voltando. Não há ninguém perto o suficiente para ver minha ruína, minha queda. Além de você. Mas, aposto o meu corpo, você seria o primeiro a me empurrar e dizer que o bom da vida só acontece nos momentos de terror. E eu estou aterrorizada.

- Henrique… Você sabe que é errado, sabe que não deve. - Um beijo de leve no lóbulo, no pescoço, e as carícias começam a subir. Sinto tua boca, devagar, passar a milímetros da minha, em mais uma tentativa de me provocar. Você faz de propósito, sei disso.

- Eu não vejo nada de errado em duas pessoas se amarem, Anna. - Que tipo de argumento eu teria contra isso? Você ganhou, de novo. Eu cedo. E, de repente, não parece haver qualquer tipo de problema em você beijar meu pescoço e minhas mãos correrem para as suas costas. Eu agarro tua camisa preta e você como se fossem as últimas coisas que me mantém viva. Eu preciso disso. Preciso de você.

Então, você levanta a cara e ficamos menos de um palmo de distância. Olho com olho, nariz com nariz, boca com boca… Um único movimento e eu sou sua. Eu me rendo. Eu sou tua prisioneira e você me olha como se me pedisse permissão. E tudo isso dura apenas um segundo até que nossas bocas se unem e eu já não sei diferenciar a esquerda da direita, o em cima e o embaixo. Eu já não sei nem meu nome, garoto. Só sei que te pertenço. Nosso beijo se acelera e nós dois sabemos que isso não significa algo bom, mas não arrumamos forças para dizer as palavras que nos fariam parar. No ritmo perfeito, na sincronia perfeita. Eu quase me esquecera de como era beijar alguém que fosse feito para você. Quase esqueci de como era ter o calor pressionado contra o próprio corpo, ambas mentes unidas. 

Você me puxa para o seu colo e nós dois meio que formamos um corpo só. Não existe espaços entre nós, e nada parece o suficiente. Eu seguro seus cabelos e você agarra minha cintura e tudo o que eu consigo pensar é como eu gostaria de estar ainda mais próxima de você. Minhas mãos exploram seus ombros e as suas passeiam pelas minhas costas. Eu quase esqueci como era tocar alguém que nos conhece melhor que nós mesmos. Você me segura mais perto, como se pedisse para eu não partir. Eu não vou, amor. Nunca.

(Espera aí… O que é que estamos fazendo?)

- Henrique… - eu digo, quase sem fôlego. Mas preciso dizer, porque se não for agora, talvez nunca mais diga. - Henrique, é sério. - repito, mas minha voz sai tão fraca e sem vontade que nem eu acredito. Você continua a beijar meu pescoço e, mesmo pedindo para parar, minhas mãos não soltam de seus cabelos castanho-escuro. - Isso é errado, não pode acontecer. Não mais. A gente já conversou sobre isso, e prometemos que iria acabar. Nós dois nunca…

- Anjo. - Seus olhos me incendeiam e eu esqueço completamente do porquê de continuar falando. - Tem medo de mim?

(Sim.)

- Claro que não.

- Então, me prova. Se quiser mesmo ir, se quiser mesmo que eu te esqueça, volta pro banco passageiro e a gente finje, pela milésima vez, que isso não aconteceu. Agora, se você quiser… Se realmente quiser, me prova. - Suas mãos me largam e pousam sobre o ar. - O que vai ser?

(Silêncio.)

Um segundo. Dois. Três. Quatro.

Eu tranco a respiração.

(E agora?)

- Droga, você já sabe a resposta.

E te beijo. De novo e de novo. E só Deus sabe como ainda falta tempo para essa noite acabar. Ana F (salt-waterroom)

11/11/2011 às 11:00pm | 759 notes | reblog this!
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